Que doenças provoca?

 

O sistema respiratório é o mais afectado pela inalação de fibras de asbestos. Para além de asmas, bronquites e outras limitações respiratórias crónicas podem causar quatro tipo de doenças pulmonares: asbestose, doenças pleurais, cancro do pulmão e mesotelioma. As duas primeiras, segundo o mecanismo de patogenicidade, são classificadas como doenças fibróticas e são benignas. As restantes são doenças neoplásicas e são malignas.

 Asbestose

O desenvolvimento desta doença está relacionado com a teoria do “macrófago frustrado”. Segundo esta, as fibras inaladas mais curtas que atingem o espaço alveolar, são facilmente fagocitadas pelos macrófagos e removidas do sistema respiratório. Contudo, as fibras mais longas (especialmente as do tipo anfíbola) devido à sua forma em agulha são muito difíceis de fagocitar e os macrófagos na tentativa de as digerir libertam citoquinas e o seu conteúdo lisossomal. Como estas fibras são resistentes à digestão por estas enzimas, ao contrário do que acontece com as fibras curtas (crisótilo) que facilmente se dissolvem, elas persistem no espaço alveolar e estimulam a libertação de mais citoquinas de outros macrófagos frustrados.

Outros mediadores químicos libertados pelos macrófagos estimulam uma resposta inflamatória que inclui a libertação de factores quimiotáticos que mobilizam mais macrófagos para a área e a libertação de fibronectina que estimula os fibroblastos a produzirem tecido fibroso nessa zona.

Foi demonstrado também que os asbestos têm capacidade de catalisar a peroxidação lipídica, o que sugere que este pode ser outro mecanismo pelo qual os asbestos provocam danos nos tecidos.

A resposta inflamatória começa algumas semanas após a primeira exposição ao amianto e a fibrose é continuamente provocada enquanto existirem fibras persistentes nos pulmões.

Os primeiros sintomas de asbestose são a respiração curta em esforço e a pouca tolerância ao exercício físico e quando surgem já existe uma difusão fibrótica peribronquial. Quando a fibrose intersticial, que caracteriza esta doença, é muito difusa ocorre hipertensão pulmonar e morte por falência cardíaca. Contudo, a principal causa de morte em indivíduos com asbestose é o desenvolvimento de cancro do pulmão.

 Doenças Pleurais 

Consideram-se doenças pleurais as placas pleurais, as efusões pleurais e a fibrose pleural difusa. Ocorrem quando são inaladas fibras de asbestos pequenas o suficiente para penetrarem profundamente nos alvéolos onde são removidas pelos vasos linfáticos para o folheto visceral da pleura.

Estas fibras podem passar para o espaço interpleural onde são novamente absorvidas por vasos linfáticos e conduzidas para o folheto parietal.

 Alguns investigadores especulam que essas fibras alcançam o folheto parietal da pleura devido à maior excursão respiratória verificada em zonas, como é o caso da zona posteroinferior  do tórax e do diafragma (onde são frequentemente encontradas as placas pleurais).

Outra teoria considera que a localização de placas pleurais nesta zona não está relacionada com os movimentos respiratórios mas antes com um fluxo linfático preferencial para estas áreas. Embora estas doenças pleurais sejam usualmente benignas, indivíduos com espessamento pleural extenso ou placas pleurais podem ter seriamente comprometida a função respiratória, necessitando muitas vezes de proceder à remoção cirúrgica desse tecido fibroso.

 

Placas pleurais: São áreas de fibrose hialina que se desenvolvem apenas no folheto parietal, quer sobre o diafragma quer sobre as paredes torácicas.

A espessura das placas e a área coberta é variável, verificando-se um aumento da espessura com o tempo e tendência para calcificar mais de 30 anos após a exposição inicial aos asbestos.

Efusões pleurais: Ocorrem episodicamente no folheto visceral. A sua causa não está bem esclarecida. Alguns dados sugerem um aumento de risco de desenvolvimento de mesotelioma nestes pacientes. São assintomáticas e passam despercebidas.

Fibrose pleural difusa: Ocorre no folheto parietal. Julga-se que se desenvolve posteriormente às efusões pleurais. Pode ser localizada ou abranger todo o pulmão, sendo necessário nestes casos proceder à remoção cirúrgica destas massas fibróticas para o libertar.

À periferia do pulmão podem igualmente surgir áreas de fibrose que são muitas vezes confundidas com tumores (pseudo-tumores).

 Em casos raros, pode acontecer que a inflamação associada a esta doença se estenda até ao pericárdio. Esta pericardite responde aos corticosteroides e é auto-limitada.

 

 CANCRO DO PULMÃO

 O mecanismo pelo qual a exposição aos asbestos leva a um aumento do risco de cancro do pulmão, não está bem esclarecido.

 Estudos mais recentes sugerem que o desenvolvimento de um tumor se processa em diferentes passos que envolvem a iniciação do tumor e a sua promoção.

A carcinogénese é provavelmente iniciada devido a mutações em genes críticos como os proto-oncogenes e os genes supressores de tumores, que de algum modo são perdidos ou inactivados e permitem que as células cancerígenas se desenvolvam.

Uma vez que o cancro é iniciado outras substâncias actuam como promotores e aumentam a taxa de crescimento do tumor.

Pensa-se que o amianto actua como promotor e não como indutor de tumor. Só há desenvolvimento de cancro de pulmão devido à exposição aos asbestos se existirem outros factores que propiciem o seu aparecimento (radiações, fumo de tabaco).

Por outro lado, esse desenvolvimento só se verifica quando existe já uma situação de asbestoses (o cancro de pulmão é uma patologia secundária à abestose).

Na resposta inflamatória intensa que decorre na asbestose dá-se a libertação de citoquinas, factores quimiotácticos, prostaglandinas, fibronectina, factores de crescimento de plaquetas e metabolitos activos de oxigénio. Estas espécies reactivas do oxigénio são consideradas por muitos autores como causadores de malignidade e as citoquinas libertadas pelos macrófagos estimulam a mitose. Uma divisão celular aumentada favorece a ocorrência de mutações, logo, a iniciação de cancro.

Os asbestos são então classificados como promotores de tumor embora possam exercer directamente efeitos mutagénicos.

 Mesotelioma 

      O mesotelioma é um tumor maligno que se localiza nas células mesoteliais da pleura (ao nível da cavidade torácica) ou nas células peritoneais do abdómen, sendo o mesotelioma pleural o mais frequente. O mesotelioma peritoneal, geralmente, ocorre em indivíduos com história de exposição intensa e cumulativa a asbestos e que, habitualmente, desenvolveram asbestose. Por outro lado, o mesotelioma pleural pode ocorrer em indivíduos expostos a níveis baixos destas fibras e que não desenvolveram previamente asbestose.

    A exposição às fibras do tipo anfíbola  é a que conduz a uma maior incidência desta doença pulmonar e, dentro deste grupo, é a crocidolite a mais carcinogénica . A amosite possui uma toxicidade intermédia. A situação é, contudo, controversa quando se trata do crisótilo. Estudos apontam para uma relativa inocuidade desta variedade fibrosa quando em estado puro. No entanto, quando se encontra contaminado com tremolite ( do grupo das anfíbolas), é igualmente responsável por casos de ocorrência de mesotelioma.

A análise citogénica permitiu verificar que nos mesoteliomas humanos ocorrem alterações cromossómicas não aleatórias.

Contudo, o mecanismo pelo qual há indução de aneuploidia , isto é, o ganho ou perda de um cromossoma individual, permanece incerto. Provavelmente, a presença de fibras durante o processo mitótico nos macrófagos, poderá interferir com a segregação cromossomal.

Este facto, sugere que nas células mesoteliais, os asbestos poderão actuar como iniciadores de mesotelioma, uma vez que constituem os promotores primários do cancro do pulmão.

O crescimento incontrolável das células começa imperceptível e, inicialmente, não provoca incómodo. Com a evolução da doença, começam a surgir os primeiros sintomas que são, usualmente, dor difusa no peito e com menos prevalência, falta de ar e tosse.

Em geral, as pessoas afectadas morrem no espaço de 12 a 18 meses após o diagnóstico, pois este é extremamente difícil e a terapia insuficiente.

 

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