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Toxicidade
A ingestão diária de chumbo diminuiu de 400 - 500
mg
em 1940 para valores inferiores a 20mg actualmente.
A diminuição pode ser explicada em certo modo pela redução do conteúdo
de chumbo existente nas tubagens;
existem actualmente nas condutas, teores inferiores a 0,05mg/mL,
o que provoca uma ingestão diária aproximadamente de 10mg.
A introdução de gasolina sem chumbo no mercado e a consciencialização
do perigo das tintas com chumbo levou à diminuição no teor sanguíneo de
chumbo, de 12,8 para 2,8mg
entre 1988 e 1991 (Pirkle, 1998). Durante o tempo em que foram usados combustíveis com
aditivo de chumbo orgânico – tetraetil chumbo, que é quebrado a trietil
chumbo -, este era absorvido pela pele, conseguindo atingir o cérebro.
Crianças que vivem no centro de cidades com mais de um milhão de
habitantes têm teores sanguíneos de chumbo de 13,9mg
em média, sendo que 35% destas crianças têm valores maiores que 10mg,
isto é, um teor mais elevado do que a recomendação do Centro para o Controlo
de Doenças Americano (CDC); um estudo de Manton
et al. (2000) determinou que as maiores fontes ambientais de contaminação
para crianças até aos quatro anos, são a transferência mão-boca a partir do
solo.
A exposição de trabalhadores nos locais de trabalho ao chumbo é menos
frequente nos nossos dias ao contrário do que se verificava nos anos 30, 40 ( Wegman
and Fine1990) contudo filhos de trabalhadores expostos ao chumbo têm uma
concentração sanguínea de chumbo maior que a generalidade da população
( Whelan et al.1997). Existem também outros factores que influenciam a toxicidade do
chumbo como factores de índole nutricional e da dieta ( Mahaffey 1985). Outros factores como o tabaco, consumo de álcool e
a idade também provocam variações em termos de concentração sanguínea ( weyerman
and Brenner 1997). Surgem também variações devido ao consumo de cálcio e
derivados do leite.
Toxicocinética
Adultos
absorvem 5 a 15% do chumbo ingerido e usualmente retêm 5% desse valor.
Crianças absorvem um valor muito superior. Existe um estudo (Ziegler et
all 1978) que concluiu que a absorção
das crianças é de 41,5% sendo retidos 31,8 %, sendo este valor influenciado
pela idade e desenvolvimento do sistema gastro intestinal.
Dietas pobres em cálcio e ferro aumentam a absorção do chumbo (Ziegler et
all 1978; Wasserman et al. 1994 e Bruenning et al. 1999),a diminuição da
absorção do chumbo por ingestão de cálcio deve-se à competição entre os
dois elementos ( Fullmen et al. 1992).
Existem também diferenças em termos de absorção face à via de entrada
do chumbo no organismo; se esta ocorrer por ingestão de água ou outro líquido
ele é mais absorvido do que quando é veiculado pelos alimentos. Também o
facto de o chumbo ser ingerido com as refeições diminui a sua absorção
relativamente à ingestão entre refeições.
A absorção pulmonar depende
da concentração de chumbo, do facto de este se encontrar na forma sólida ou
gasosa e da distribuição de partículas na atmosfera. Sendo que cerca de 90%
das partículas de chumbo no ar que se depositam nos pulmões são
suficientemente pequenas para serem retidas e com absorção facilitada.
A quantidade total de chumbo no organismo divide-se em duas fracções (O’Flaherty
1998): uma parte que se deposita no esqueleto e que tem um tempo de
semi-vida superior a vinte anos e
uma segunda fracção que se deposita nos tecidos moles e que é mais frágil.
O chumbo depositado a nível ósseo contribui na ordem de 50% para a
concentração sanguínea de chumbo.
Os tecidos moles em que ocorre deposição de chumbo são normalmente o rim
e o fígado mas ele pode surgir em todos os órgãos, tendo-se verificado em
estudos animais que o chumbo ao nível do sistema nervoso central tem tendência
a concentrar-se na matéria cinzenta e certos núcleos.
Excreção
Ocorre principalmente a nível renal
por filtração glomerular podendo também em menor grau ser excretado com fluidos
corporais, incluindo o leite durante o aleitamento materno ( Gulson
et al. 1998). A quantidade de chumbo excretado por via urinária e fecal está
directamente relacionada com a quantidade ingerida
(Ziegler et all 1978).
Toxicidade
aguda a
sintomatologia relacionada com intoxicação aguda é relativamente rara mas
pode acontecer após ingestão acidental de grandes quantidades. Nestes casos o
doente apresenta uma concentração sanguínea acima de 80mg/dL
associada a dores abdominais com ou sem queixas neurológicas de dor de cabeça
devidas a danos a nível cerebral. A dor abdominal na sua forma mais severa
designa-se Cólica de Chumbo e é caracterizada pelo abdómen retraído e rígido
com abaixamentos da pulsação. Tanto a forma aguda como a crónica podem estar
associadas a obstipação assim como a diarreia. Outros sintomas estarão
relacionados com aumento da irritabilidade, fadiga, dores de cabeça, anorexia e
perturbações do sono. Num estado mais agravado podem surgir manifestações de
confusão, alucinações, desordem e falta de coordenação dos movimentos
voluntários, tonturas, apatia e coma.
Toxicidade
crónica é
clinicamente a forma mais comum, surgindo após exposição contínua na qual os
níveis sanguíneos se encontram entre 25-60
mg/dL,
sendo as queixas iniciais mais frequentes semelhantes às da intoxicação
aguda. Certos estudos em trabalhadores com concentrações entre 30-60mg/dL
detectaram alterações subclinicas, na destreza visual motora e no tempo de
reacção. Sendo estas alterações atribuídas a efeitos neurotóxicos centrais
e periféricos.
Normalmente os
efeitos neurotóxicos do chumbo não são detectáveis no exame físico até
persistirem durante meses ou anos concentrações sanguíneas entre 60-80mg/dL.
Podem surgir manifestações iniciais como o tremor das mãos, por vezes
afectando a cabeça, lábios ou língua, podem assemelhar-se ao tremor associado
à exposição crónica ao mercúrio. Um achado clássico associado a uma exposição
mais extensiva refere-se à fraqueza e atrofia dos músculos periféricos
particularmente os extensores dos dedos e dos pulsos.
Estudos
recentes demonstraram que o chumbo causa stresse oxidativo ao induzir a formação
de espécies reactivas de oxigénio e ao diminuir a capacidade antioxidante de
defesa celular. Existindo então estudos que correlacionam a intoxicação por
chumbo com o dano a nível celular. (Bechara
et al., 1993; Hermes-Lima et al., 1991).
Em eritrócitos de trabalhadores expostos ao chumbo a actividade das enzimas
antioxidantes, superoxido dismutase e glutationa peroxidase eram marcadamente
mais elevadas do que em trabalhadores não expostos (Monteiro
et al., 1985). Estes
resultados sugerem que os antioxidantes podem desempenhar um papel importante no
tratamento de uma intoxicação por chumbo.
Gravidez
Durante a gravidez e a lactação o chumbo depositado a nível ósseo pode
ser mobilizado (Silbergeld et al. 1988)
podendo ocorrer excreção no leite materno ( Gulson
et al.1998);
O chumbo atravessa a
placenta sendo normalmente os níveis de chumbo no cordão umbilical
correlacionados com a concentração sanguínea de chumbo materna; A
concentração materna de chumbo a nível sanguíneo diminui durante a gravidez provavelmente devido à hemodiluíção. A
acumulação de chumbo nos tecidos fetais incluindo o cérebro é proporcional à
concentração sanguínea materna (
Goyer1996).
Efeitos a nível comportamental, do desenvolvimento e a nível
neuronial nas crianças
Encefalopatia pode ocorrer após
exposição a níveis muito elevados de chumbo, podendo surgir sintomas
iniciais, como: vómito, irritabilidade, perda de apetite e tonturas que
progridem para ataxia e diminuição do nível de consciência, podendo ocorrer
evolução para coma ou mesmo morte. Este declino progressivo é acompanhado por
perda de neurónios e aumento de células da glia. Podendo estes factos ser uma
consequência do aumento da permeabilidade capilar e diminuição da capacidade
protectora de quelataçao do chumbo pela astroglia no cérebro imaturo. A
recuperação deste tipo de patologia leva normalmente a sequelas que incluem
epilepsia, atraso mental e em muitos casos patologias oftalmológicas ou mesmo
cegueira (Perlstein and Attala 1966).
Durante o
desenvolvimento cerebral a exposição ao chumbo tem diferentes consequências,
interferindo com o sistema catecolaminérgico e induzindo alterações em
enzimas como etanolamina-N-metiltransferase e colina acetiltransferase (McIntosh
et al. 1987). O chumbo altera a homeostasia do cálcio ao substitui-lo e
alterando desse modo o uptake mitocondrial ( provoca a diminuição da produção
de energia, substituindo o cálcio na bomba de cálcio e
sódio, bloqueando também a entrada de cálcio nas terminações nervosas).
A paralisia
cerebral pode também ocorrer sob a forma de atraso mental e na estatura. (Musa
et al. 1989; Nepalesas and Bellinger 1991).
Num estudo
recente em crianças em idade pré-escolar que estiveram expostas a níveis
moderados de chumbo (superiores a 20ppm na dentina) verificou-se que a desistência
no ensino secundário era sete vezes maior e verificando-se uma capacidade para
a leitura seis vezes menor do que crianças expostas a níveis mais baixos.
Crianças expostas a níveis mais elevados também demonstravam problemas de
atenção, falta de vocabulário e dificuldades gramaticais. Sciarillo (1992)
verificou que crianças 2 a 3 anos mais velhas do que as anteriores e com níveis sanguíneos
de chumbo superiores a 15mg/dL
tinham duas vezes maior tendência para apresentarem problemas de sono, eram
cinco vezes mais agressivas, quatro vezes mais destrutivas e duas vezes e meia
mais propensas a problemas somáticos do que crianças com níveis inferiores a
15mg/dL.
Certos estudos detectaram efeitos neuropsicológicos como diminuição do QI
para concentrações sanguíneas que inicialmente se consideravam seguras ( 10-15mg/dL).
Sendo mesmo considerada uma diminuição de dois pontos no valor de QI.
Efeitos
hematológicos
Na anemia induzida por chumbo os glóbulos
vermelhos surgem microcíticos e hipocrómios como na deficiência em ferro,
existindo normalmente aumento de reticulócitos com granulações basófilas. A
anemia deve-se a dois factores: diminuição do tempo de vida dos glóbulos
vermelhos que se considera dever-se ao aumento da fragilidade das membranas
celulares não sendo conhecida a origem deste efeito; o segundo factor é a
alteração ao nível da síntese do grupo heme. Surge também inibição da
enzima desidratase do ácido aminolevulânico (ALA-D) e diminuição da
actividade da oxidase do coproporfirinogénio. A actividade da enzima quelante
do ferro também fica diminuída, tendo esta enzima uma acção na incorporação
do ião ferro na protoporfirina, vai levar à diminuição da formação do
grupo heme. A diminuição da síntese do grupo heme estimula o primeiro passo
da síntese do grupo heme, recebendo a sintetase do ácido delta-aminolevulénico
feedback negativo. Deste modo o aumento da síntese de ácido delta-aminolevulénico
(ALA) e a diminuição da actividade da ALA-D
provocam o aumento do nível de sangue circulante e da excreção de ALA.
Este tipo de anemia só surge para doses
muito elevadas de chumbo. Todas estas alterações estão relacionadas com a
concentração sanguínea de chumbo servindo de índices bioquímicos da exposição
a este metal.
Toxicidade
renal
Este foi um dos primeiros efeitos atribuídos
ao chumbo (Oliver.1902) tendo sido uma
patologia relevante quando existia uma exposição muito elevada, porém
actualmente com a diminuição dessa exposição crónica é uma patologia com
tendência a desaparecer.
Clinicamente manifesta-se por diminuição
das funções de transporte dependentes de energia, incluindo aminoacidúria,
glicosúria e transporte de iões (descoordenação na reabsorção de sódio)
considerando-se que as alterações se devem ao efeito do chumbo ao nível da fosforilação e respiração mitocondrial. As alterações mais pronunciadas
ocorrem nos túbulos proximais, surgindo complexos de chumbo-proteínas a este nível
formando corpos inclusivos visíveis ao microscópio, ocorrendo a ligação
entre os dois elementos através dos grupos carboxílicos dos aminoácidos (Moore
et al. 1973)
Na generalidade as lesões são reversíveis,
mas caso a exposição seja crónica pode ocorrer atrofia das células
tubulares, nefropatia intersticial que envolve alterações patológicas
vasculares e fibrose.
Efeitos
cardiovasculares
Apesar de existirem divergências
Hu et al. (1996) relacionou
a acumulação de chumbo com a hipertensão como já tinha acontecido nos
estudos de Harlan et al. (1988). Sendo o
mecanismo aceite para este efeito a diminuição da actividade
da ATPase sódio/potássio e a estimulação da bomba de sódio/potássio
assim como alterações na resposta a catecolaminas (Victery
1988).
Imunotoxicidade
Estudos em trabalhadores com exposição ao chumbo devido à ocupação
sugeriram que o chumbo tem efeito imunossupressivo, o que foi verificado por Mcabe
e Lawrence (1991), que verificaram uma diminuição de imunoglobulinas e
outros componentes do sistema imunológico devido à exposição ao chumbo. Também
alterações ao nível da quimiotaxia foram verificadas em polimorfonucleados em
trabalhadores com concentrações sanguíneas de chumbo inferiores a 33m/dL
(valentino et al. 1991). Verifica-se
ainda a diminuição de linfócitos B a nível periférico (Jaremin.1983).
Efeitos
ósseos
O chumbo altera directa e indirectamente
a ossificação. A retenção e mobilização do chumbo a nível ósseo ocorre
pelo mesmo processo que o cálcio, envolvendo calcitonina, vitamina D e hormona
paratiróide ( Pounds et al.1991) .
O chumbo presente no esqueleto facilmente
é transferido para o sangue como foi verificado com isótopos estáveis, tendo
sido também identificado que 45 a 70% do chumbo detectado no feto provinha da mãe
( Gulson et al. 1995). Durante a
gravidez e a lactação aumenta a mobilização de chumbo a partir de esqueleto
materno, surgindo um aumento correspondente na concentração sanguínea do feto
( Gulson et al. 1998 ).
Efeitos
a nível do sistema reprodutor
Há muito tempo
que se associa a toxicidade do chumbo à esterilidade e morte neonatal. Tendo
sido já verificados efeitos gametotóxicos em animais dos dois sexos ( Stowe
e Goyer 1971). Nos finais do século dezanove, princípio do século vinte
os compostos com chumbo foram mesmo usados como abortíferos. Alguns estudos
detectaram aumento de defeitos a nível cromossomal para concentrações sanguíneas
superiores a 60mg/dL,
redução das contagens em esperma, mobilidade e morfologia anormal foram
encontradas em trabalhadores de indústrias produtoras de baterias que contém
chumbo verificando-se uma concentração sanguínea deste elemento na ordem das
40m/dL
( Assenato et al. 1986). A diminuição
da função endócrina testicular foi verificada em trabalhadores expostos ao
chumbo, relacionando-se a diminuição com o tempo de exposição para
trabalhadores com uma concentração sanguínea média de chumbo de 60mg/dL
( Rodamilans et al. 1988 ) .
Efeito
no número de nascimentos parece existir uma relação
entre a concentração sanguínea materna de chumbo e a diminuição do tempo de
gestação e peso do feto (MCMichael et
al. 1988; Borschein et al.1989).
Carcinogenicidade
Um estudo em Inglaterra em trabalhadores expostos
ao chumbo não verificou um aumento da incidência de cancro (
Dingwall-Fordyce and Lane 1963); outro estudo nos EUA verificou um ligeiro
aumento no número de mortes por cancro também em trabalhadores expostos ao
chumbo ( Cooper and Gaffey 1975)
sendo contudo a maioria dos tumores encontrados ao nível respiratório e
digestivo e não a nível renal. Estudos epidemiológicos relacionaram a exposição
ao chumbo com cancro pulmonares e cerebrais ( Antilla et al. 1995; Coco et al. 1998).
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