MECANISMO DE ACÇÃO / TOXICIDADE

 

         As formas químicas do Hg que provocam alterações nos seres vivos são: Hg elementar, compostos inorgânicos (cloreto de Hg) e compostos orgânicos (metil-mercúrio). O Hg elementar é o mais volátil e a via mais importante de captação é a respiratória, sendo que 80% do vapor inalado é retido no organismo. Sofre completa absorção pelas membranas alveolares, devido às suas características de alta difusibilidade e solubilidade em lípidos. Grande quantidade de vapor inalado permanece na corrente sanguínea e atravessa as barreiras hemato-encefálica e placentária. (10)

         A forma mais nociva dos compostos de Hg é os sais alquilados (metilmercúrio). São mais absorvidos através do tracto gastrointestinal do que os inorgânicos, porque possuem maior solubilidade em lípidos; apesar de exercerem acção corrosiva menos intensa sobre a mucosa do intestino. (10)

 

 

*    METABOLISMO CELULAR

 

Dentro das células, o mercúrio pode ligar-se a uma série de sistemas de enzimas, incluindo os das mitocôndrias e microssomas, produzindo lesões celulares não específicas ou morte celular. Tem uma particular afinidade para as proteínas contendo grupos sulfidrilo. Nas células do fígado, o metilmercúrio forma complexos solúveis com a cisteína e com a glutationa, que são segregadas na bílis e reabsorvidas no tracto gastro-intestinal. (2)

Existem várias descrições de efeitos sobre enzimas, sendo muitas destas importantes para o funcionamento do miocárdio.

Oliveira e colaboradores descreveram a redução da hidrólise de ATP em tecido neuronal. (10) Também neste tecido, ficou demonstrado que o Hg inibe a actividade da Na+, K+, ATPase, o que também é observado noutros tecidos como o miocárdio e o renal, sendo que, neste último caso, a inibição está relacionada com a acção diurética do metal. Além desses efeitos, o Hg ainda deprime a actividade das Ca2+ ATPases, o que interfere na captação de Ca2+ do RS (retículo sarcoplasmático) das células musculares.

Entretanto, outras enzimas têm a sua actividade aumentada pela acção do Hg, como a colinesterase plasmática, por exemplo, que tem a sua actividade aumentada por doses sabidamente tóxicas de Hg.

Dados indirectos também indicam que o Hg age sobre as proteínas contrácteis, reduzindo o desenvolvimento de força, embora ainda não se saiba se este efeito é sobre a ATPase miosínica ou sobre algum outro local das proteínas contrácteis.

Outros mecanismos, dependentes da actividade de radicais SH (sulfidrilo), também são afectados pelo Hg. Assim, os canais de Ca2+ do RS, que se abrem na dependência de radicais SH, aumentam a libertação de Ca2+ quando afectados pelo metal. Este resultado mostra que o Hg teria então, um duplo efeito sobre o RS, aumentando a velocidade de libertação de Ca2+ e reduzindo a captação de Ca2+ pela inibição da Ca2+-ATPase. (10)

 

 

*    TOXICIDADE RENAL

 

Os compostos mercuriais, cronicamente, promovem dois tipos de alterações a nível renal. A primeira é a lesão glomerular causada por uma reacção auto-imune induzida pelo Hg e resultando na formação de anticorpos contra o tecido glomerular, levando a proteinúria e síndrome nefrótico. A segunda, é um dano tubular renal, resultando em perda de enzimas tubulares como glutamiltranferase e enzimas lisossomais. (10)

A parte proximal do túbulo renal é o segmento mais vulnerável do nefrónio aos efeitos tóxicos do Hg. A actividade do Hg no rim baseia-se em interacções moleculares que ocorrem em locais nucleofílicos específicos das células alvo e suas proximidades. As interacções moleculares do Hg com os grupos sulfidrilo das moléculas de albumina, metalotionina, glutationa e cisteína são responsáveis por mecanismos envolvidos na captação, acumulação, transporte e toxicidade dos iões de Hg ao nível do túbulo proximal. (11)

 

            

 

Estudos efectuados relacionavam a incidência de hipertensão arterial e nefropatia com proteinúria e enzimúria em trabalhadores expostos ao Hg. (10)

 

 

*    TOXICIDADE CARDIOVASCULAR

 

Em relação ao aparelho cardiovascular pouco se tem descrito. Estudo sobre as acções crónicas têm mostrado efeito ionotrópico  positivo ,  sem  alteração  da  frequência  cardíaca ,  hipertensão  arterial  com  redução  da  resposta  à  estimulação  α – adrenérgica  e aumento da estimulação β – adrenérgica.

Os efeitos agudos sobre o aparelho cardiovascular de seres humanos são praticamente desconhecidos.

 

 

*    NEUROTOXICIDADE DO METILMERCÚRIO

 

A exposição do feto no útero a altos níveis de mercúrio resulta numa migração anormal dos neurónios, numa desorganização dos núcleos cerebrais (grupo de neurónios) e numa disposição em camadas de neurónios no córtex. O metilmercúrio interage com o DNA e com o RNA e liga-se aos grupos SH, resultando em alterações da estrutura secundária da síntese do DNA e RNA. (2)