Antes de ser prescrito um tratamento para pessoas intoxicadas com bipiridilo, deve-se reconhecer o quadro clínico característico das intoxicações por estes compostos, estabelecer um diagnóstico e realizar provas de laboratório que confirmem o diagnóstico, caso necessário [ah]. Na forma concentrada, o paraquato provoca lesões nos tecidos com os quais contacta. O paraquato é fracamente absorvido através de pele sã, mas através da pele danificada a sua penetração é muito maior, desencadeando injúrias cutâneas. Trata-se, contudo, de uma via de exposição preocupante na medida em que se torna irritante para a pele [i,ac,ad]. A via inalatória não consiste a via de exposição mais significativa porque o paraquato tem baixa volatilidade [g,ad]. A ingestão pode ser acidental ou, como muito frequentemente acontece, pode ser com intenção suicida. Com o intuito de evitar a ingestão acidental deste composto inodoro e insípido, as empresas que o produzem adicionam-lhe substâncias nauseabundas, eméticos e corantes [ad]. A toxicidade deste herbicida deve-se, particularmente, aos seus efeitos sistémicos, isto é, aos danos que a substância provoca nos sistemas do organismo. Assim, se ingerido em quantidade suficiente, o paraquato tem efeitos muito severos no tracto gastrointestinal, rins, fígado, coração, pulmões e outros órgãos. A intoxicação sistémica pode-se identificar em 3 fases [ah]:  

 

Fase

Características

Primeira fase

Inflamação, edema e ulceração das mucosas da boca, faringe, estômago e intestino. Enfisema subcutâneo secundário a perfuração esofágica. Pancreatite com dor abdominal intensa. Estas manifestações não são necessariamente imediatas, podendo aparecer após 24h. Existem casos fatais em que a morte ocorre sem lesões orais no momento da consulta inicial.

Segunda Fase

Danos hepáticos e nos túbulos proximais renais, miocárdio e músculo esquelético, incluindo necrose focal em alguns casos. Aparece nas 24 a 28h seguintes e manifesta-se por quadros de insuficiência hepática, renal e cardíaca.

Terceira Fase

Lesão pulmonar que se evidencia após 2 a 14 dias da ingestão do tóxico (em alguns casos o edema pulmonar apresenta-se apenas algumas horas após a exposição). Os espaços alveolares são infiltrados por hemorragia, líquido e leucócitos, após o qual ocorre uma proliferação de fibroblastos. A morte advém como consequência de um severo deterioramento do intercâmbio gasoso que produz anoxemia e anoxia tecidular.

 

A dose letal mínima nos humanos é, aproximadamente, 35mg/Kg de peso corporal [g].

O diagnóstico pode ser efectuado através de várias provas laboratoriais [ah]:

  • Prova do hidrosulfito de sódio (ditionita)- consiste na mistura de uma pequena amostra de urina alcalinizada com hidrosulfito de sódio. Na presença de paraquato adquire uma cor azul imediatamente, que varia consoante as concentrações excretadas. Com o diquato adquire cor verde. No caso de ser negativa, o resultado não é considerado conclusivo, sendo necessário confirmar com outras análises;

  • Tanto na urina como no sangue podem-se efectuar provas conclusivas recorrendo a metodologias de espectrofotometria, cromatografia gás-líquido e radioimunoensaio em hospitais e laboratórios de alta tecnologia. Após ingestão e recorrendo aos dois primeiros métodos, os níveis de paraquato associados a alta probabilidade de morte são:

2 mg/L às 4 horas
0,9 mg/L às 6 horas
0,10 mg/L às 24 horas

O tratamento deve ser iniciado o mais brevemente possível, na tentativa de evitar/prevenir a absorção gastrointestinal de paraquato. No entanto, não existe um antídoto no caso de um envenenamento por paraquato. [a, w, x, ah]

 

Assim as medidas mais eficazes são as seguintes [w, x, a] :

 

  • Lavagem gástrica, seguida de administração de carvão activado como adsorvente, para impedir que o paraquato que ainda esteja no tracto gastrointestinal seja absorvido;

  • Hemoperfusão, o que permite reduzir as concentrações sanguíneas de paraquato, quando a absorção deste já teve início.

 

Uma vez o paraquato acumulado nos pulmões, é muito difícil fazer alguma coisa para alterar ou diminuir de alguma forma a sua toxicidade.

 

 

O que fazer em caso de… [f, ah]

 

  • Contacto com os olhos – lavar imediatamente e abundantemente a área afectada com água corrente. Consultar um médico o mais rápido possível;

  • Contacto com a pele – lavar imediatamente a área afectada com água corrente. Se houver contacto com o vestuário, retirar imediatamente todo o vestuário contaminado e lavar a pele com água. Se persistir alguma irritação após a lavagem, consultar um médico;

  • Inalação – levar a pessoa para local aberto (ao ar livre). Caso tenha havido paragem respiratória, fazer respiração artificial. Consultar o médico o mais rápido possível, mantendo a pessoa aquecida e em repouso;

  • Ingestão – se a pessoa estiver consciente, dar-lhe imediatamente grandes quantidades de água e provocar o vómito tocando com os dedos na garganta. Se a pessoa estiver inconsciente chamar um médico imediatamente, tal como no caso anterior.



ALGUNS CONSELHOS PARA EVITAR INTOXICAÇÕES ACIDENTAIS [aj]

 

  • Explique às crianças o risco de tomar remédios de que não estão a precisar e o perigo de provar ou mexer em produtos perigosos;

  • Não tome nem dê medicamentos às escuras e não exceda as doses prescritas;

  • Guarde os medicamentos e outros produtos químicos (produtos de limpeza, pesticidas, tintas, petróleo, diluentes) fora do alcance das crianças;

  • Não aplique raticidas, naftalina ou outros pesticidas em locais acessíveis às crianças;

  • Não utilize embalagens vazias para guardar outros produtos, guarde-os nas suas verdadeiras embalagens;

  • Feche as embalagens e guarde os produtos imediatamente após o uso;

  • Não dê embalagens vazias às crianças para brincar;

  • Não ponha produtos de uso doméstico junto a comidas ou bebidas;

  • Guarde em segurança as bebidas alcoólicas;

  • Não esqueça que os perfumes, águas de colónia e loções para a barba podem ser soluções alcoólicas;

  • Conheça o significado dos símbolos existentes nos rótulos;

  • Leia as instruções de aplicação com cuidado e aplique os produtos dentro das regras de segurança, principalmente quando usar pesticidas, produtos corrosivos, tira nódoas e vernizes;

  • Não deixe abandonadas embalagens de pesticidas destapadas, vazias ou vasilhas com resto de caldas;

  • Após usar, feche as torneiras do gás e tenha sempre as instalações em bom estado e, se possível com dispositivos de segurança;

  • Não tenha instalações de gás na casa de banho;

  • Não tenha plantas tóxicas em casa ou no jardim;

  • Não deixe as crianças comerem bagas ou sementes de plantas desconhecidas;

  • Não apanhe nem cozinhe cogumelos frescos, se não os distinguir com exactidão;

  • A calma é muito importante, não se precipite, mas não perca tempo;

  • Tenha o número do Centro de Informação Antivenenos(CIAV), do INEM, perto do telefone: 808 250 143

 

 

Departamento de Toxicologia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto - 2005 / 2006