 |
Escala de dose-efeito nos casos de
ingestão de Paraquato [ah]
Doses |
Efeitos e prognóstico |
Menos de 20 mg/kg de peso corporal (menos de 7.5 ml do concentrado de paraquato a 20%) |
- Intoxicação leve
- Manifestações gastrointestinais (vómito e diarreia)
- Alteração transitória das provas funcionais respiratórias
- Há possibilidade de recuperar
|
20 a 40 mg/kg de peso corporal ( 7.5 a 15.0 ml do concentrado de paraquato a 20%) |
- Intoxicação moderada a severa
- Sintomatologia gastrointestinal, falha renal, alteração hepática e problemas pulmonares
- Morte em 2/3 semanas por fibrose pulmonar
|
Mais de 40 mg/kg de peso corporal (mais de 15.0 ml - uma colher - do concentrado a 20%) |
- Intoxicação aguda fulminante
- Manifestações gastrointestinais (úlceras bucofaríngeas, perfuração esofágica com mediastinite, vómito, diarreia
- Falha de diversos sistemas de órgãos
- Coma e convulsões
- Morte num período de 1 a 7 dias
|
|
TOXICIDADE DOS PESTICIDAS ...
Os pesticidas comummente usados em quintas incluem insecticidas, herbicidas, fungicidas e rodenticidas. Experiências adversas levaram a que o seu uso fosse cancelado ou restrito [i].
Várias classes de herbicidas de uso geral podem provocar problemas de saúde nos agricultores se usados impropriamente. Os herbicidas clorofenoxi e ácido 2,4 – diclorofenoxiacético são efectivos contra plantas de folhas grandes e, por isso, são muito utilizados para arrancar ou tirar ervas daninhas de relvados ou campos de cereais [i, ah].
A toxicidade pode resultar de longas exposições por ingestão, contacto dérmico e inalação. Exposições orais prolongadas podem provocar náuseas, vómitos, diarreia, edema pulmonar, arritmias cardíacas, bradicardias, contracções musculares e motora. A exposição da derme a soluções concentradas pode provocar queimaduras e paralisias dolorosas, bem como rigidez muscular. A exposição dos agricultores ao paraquato sugeriu um possível aumento do risco de linfoma não – Hodgkin’s mas, este achado, não é estatisticamente significativo e não é ainda suportado por estudos epidemiológicos [i].
Para evitar o uso inadvertido deste composto inodoro e insípido, as empresas que o produzem adicionam-lhe substâncias nauseabundas, eméticos e corantes [ah].
O paraquato e o diquato são herbicidas de baixa toxicidade quando ocorre uma exposição inalatória decorrente do seu uso mas, a sua ingestão pode levar a uma devastadora toxicidade pulmonar. [i].
Actualmente ainda não está comprovado se o paraquato terá efeitos carcinogénicos: por todos os estudos efectuados até agora, ele não apresenta carcinogenicidade [g,ad].
|
|
|
REACÇÕES ADVERSAS AO PARAQUATO ...
A nível humano, o paraquato apresenta toxicidade pulmonar envolvendo a xantina oxidase [t, y]. Tal como o paraquato, o diquato (composto relacionado com o primeiro), é um derivado de piridilo, também ele usado na sua forma líquida como herbicida de contacto, não selectivo, para destruir as partes verdes das plantas. O diquato e o paraquato são inibidores do fluxo electrónico do fotossistema I, provocando a sua queda em presença da luz solar. O diquato tem a fórmula 1,1’ – etileno – 2,2’ – bipiridilo [j, u, w, x, ah].
Porém, o diquato é usado em muito menor extensão que o paraquato, sendo menos poderoso. No entanto, o diquato também pode provocar envenenamentos crónicos e agudos graves [u, w, x].
A degradação do paraquato, tal como a degradação pirolítica do tabaco, pode originar isómeros dipiridilo (2,2’ -; 2,3’ -; 2,4’ -; 3,3’ -; 4,4’ -), produtos esses que podem provocar lesões cancerosas na pele, nomeadamente nas pessoas que lidam com esses produtos diariamente, tanto na produção do paraquato como na agricultura [v].
As reacções adversas do paraquato são [t, w, x, f, ad, g]:
- Vasodilatação;
- Hipertermia ao nível do sistema nervoso central – sinais neurológicos agudos;
- Náuseas, vómitos, úlcera gástrica, pancreatites e disfagia;
- Necrose tubular renal;
- Necrose hepática centrilobular;
- Edema da córnea por contacto ocular;
- Mioglobinuria a nível renal;
- Tosse, fibrose pulmonar, sangramento nasal com a inalação, síndrome da “aflição” respiratória aguda;
- A nível dermatológico: irritação dérmica, atrofia, queda, descoloração e distrofia das unhas.
Nos animais, a intoxicação pelo paraquato pode
originar [w, x, f]:
- Letargia;
- Hipoxia;
- Dispneia;
- Taquicardia;
- Hiperpneia;
- Adipsia;
- Diarreia;
- Ataxia;
- Hiperexcitabilidade;
- Convulsões.
Tanto a nível animal como humano, o pulmão é o órgão mais sensível e mais afectado,
podendo sofrer [x]:
- Hemorragia pulmonar;
- Hemorragia intra-alveolar;
- Edema, congestão e fibrose pulmonar;
- Necrose hepática centrilobular.
Os rins e o fígado também são órgãos alvos da acção do
paraquato [w, ab]. |
|
|
MECANISMO DE ACÇÃO E DE TOXICIDADE DO PARAQUATO
Há a absorção do paraquato pelas células alveolares do tipo I e do tipo II (também conhecidas por pneumócitos tipo I e tipo II, respectivamente). A absorção faz-se através de um sistema de transporte activo de poliaminas, dependentes de NADPH (putrescina H2N – CH2 – CH2 – CH2 - CH2 – NH2 e espermina H2N (CH2)3 NH (CH2)4 NH2), porque o tamanho e a forma das moléculas de paraquato são semelhantes a essas aminas [w, x, a, ab, ac, g].
Há a metabolização do paraquato pelo citocromo P450 e, ocorre uma redução em que o paraquato aceita um electrão, originando um catião radical livre. Este, reage com o O2 em condições aeróbias em grandes quantidades, voltando a formar o catião paraquato e o anião superóxido [w, x, a, ab, ac, g].
Neste ponto do mecanismo de acção, a enzima superóxido dismutase pode converter o anião superóxido em peróxido de hidrogénio, que é depois removido pela catalase, funcionando deste modo como um mecanismo de destoxificação do superóxido produzido. Porém, a superóxido dismutase numa situação de ingestão da dose tóxica de paraquato pode ser insuficiente para destoxificar todo o superóxido [w, x].
Tanto o peróxido de hidrogénio como o anião superóxido podem atacar os lípidos polinsaturados (peroxidação lipídica) presentes nas membranas celulares, originando hidroperóxidos lipídicos. Estes, podem reagir com outras gorduras insaturadas e formar mais radicais livres lipídicos, dando continuidade ao ciclo [w, x, a, ab, ac, g].
É este ataque aos lípidos polinsaturados das membranas celulares, que vai conduzir à redução da integridade funcional das células, nomeadamente à destruição das células epiteliais alveolares de tipo I e II e, consequentemente, leva à redução da eficiência no transporte e trocas de gás, que culmina na indução da deterioração respiratória [w, x, a, ab, ac, g].

Nota: a peroxidação lipídica oxida a glutationa (GSH) e, a glutationa redutase para voltar a levar esta glutationa à forma reduzida (GSSG) necessita de NADPH, o que vai diminuir a sua quantidade. Há então a estimulação da produção de mais NADPH, contudo, este vai ser usado principalmente na redução do paraquato no início deste ciclo de reacções [w] .
|
|
|
|
Departamento de Toxicologia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto - 2005 / 2006 |